Lay de cropped
Lucas Miyazaki
Lay de cropped
Lucas Miyazaki
1
Na véspera do ano novo, Lay comprou o meu cigarro favorito, Camel azul com o rótulo brocha (tenho tesão nas unhas da moça que faz um joinha pra baixo).
Me senti agraciado sendo reconhecido por tamanha peculiaridade.
2
Ela tinha colocado peitos novos, que se mostravam majestosos dentro do cropped rosa cortado à mão. Era a primeira vez que a via assim.
Senti, inclusive, uma ponta de esperança. Talvez alguma coisa pudesse mesmo acontecer porque logo depois ela pareceu piscar pra mim do sofá enquanto abria sua bolsinha. (“Semi-piscar”, aquilo que fica entre a remanescência antiga de um tique cringe e a demonstração real de carinho.)
3
Lay então piscou pra mim, do sofá sem dizer nada.
Depois ela estalou o dedo, como se para um cachorrinho.
Eu pisquei de volta dentro da minha dignidade, mas depois fui.
Tudo parecia fluir da melhor forma.
4
Eu odiava como ela não gostava de mim o suficiente ao ponto de nunca chegar em mim.
Nunca tinha me atacado com as mãos ou decidido fazer algo mais atrevido sobre minha pele.
Sendo que sempre dá a entender alguma coisa assim, desde que nos conhecemos, mas eu sempre dou a entender o contrário, alguma coisa diferente.
5
Me aproximo acanhado, fazendo o mínimo barulho com as patas, e ela enrosca seus longos dedos magros no meu pescoço.
Seus dedos enlaçaram com facilidade meu pescoço.
Não ofereço resistência, para que ela faça em mim o que precisa ser feito: de cima, estalando selinhos para os que ficam em baixo ralando o joelho no chão.
6
Mas fico compenetrado na vertigem da frase just do it impressa naquele logo que imitava um acerto de uma folha de prova corrigida por um professor de português, agora ali na camiseta rosa baby look em cropped cortada à mão, cortando ao meio o logo e a frase, o acerto da prova e o escrito ambos cortados ao meio no cropped baby look na altura dos meus olhos.
7
E não ofereço resistência. Não quero negociar nenhum adiamento da sentença, é o que penso ao ver estampado just do it no cropped. Li sobre essa frase na obra de um poeta que usava manchetes de jornal, falava sobre o assassino que a proferiu pouco antes de morrer fuzilado na cadeia.
Let’s do it, ele disse.
Impresso nas manchetes por semanas. Um grito meio profético e trágico de alguma coisa irremediável. Um futuro sem volta.
Precisava agir.
8
Revidei o enforcamento numa meia-guarda que fez a Lay cair invertendo a posição no sofá, eu por cima numa montada. (Ela é bem desengonçada, apesar de ser possivelmente mais forte.)
Eu estava por cima agora.
9
Suas mãos ainda continuavam cravadas no meu pescoço. Mãos ossudas bem maiores que as minhas, muito comprometidas em levar a cabo o enforcamento ao ponto de neutralizarem a minha vantagem. Me percorreu um súbito tremor enquanto sentia os ossos das mãos dela no meu pescoço, e isso abriu uma brecha.
“Frango”, ela disse imediatamente, enquanto ia reconquistando a posição.
Seus dedos ossudos enlaçavam com facilidade meu pescoço.
Comecei a ficar vermelho, tentando me aproximar do rosto.
Ela diz, quero te fazer sentir alguma coisa.
E eu, vai logo (murmurei com o resquício de voz).
10
Ela se aproximou mais com o resto do quadril.
Senti o volume da sua neca crescendo pela primeira vez, que ela deixou quentinho perto do meu braço.
11
Ela falava que isso causava disforia, mas ouvi da boca dela isso há uns cinco anos atrás.
Me incomodou aquele comentário displicente, mesmo jamais acreditando que ela pudesse ceder a qualquer carícia minha. E agora tudo o contrário. Essa memória latejava na minha pele como nunca.
E então, no limite daquilo acontecer, já bastante sem ar, me pendurei na beira do precipício.
12
A ponta dos meus dedos segurando a gola da sua blusinha lá em cima. Antes do meu corpo cair. Procurava agora a saboneteira da sua clavícula saliente na esperança de escalar o precipício mas escorreguei aí, caí com meu peso todo — apesar de frango, o meu peso todo que eu lancei ele foi suficiente para rasgar o cropped ao meio me fazendo cair por completo, me fazendo estatelar no chão com a blusinha rasgada nas mãos e ela de novo em cima de mim: completamente de pé contra o sol da janela. Agora sim, de verdade, avançando para cima de mim — com os peitos novos e as mãos nas coxas me mostrando as unhas do rótulo nas suas próprias mãos ossudas, sobre as coxas, no meio das quais um volume colossal me fazendo sombra.
Lucas Miyazaki é escritor e performer, atuando na intersecção entre literatura e artes cênicas. Autor dos livros Catálise e Elefantes (Prêmio Nascente). Mestre em Estudos Comparados pela USP, com pesquisa que investiga a narrativa literária como campos de experimentação na cena contemporânea. É cofundador do grupo de teatro Dispêndio, por onde tem criado a maioria das suas peças, de cunho documental e performático.
Publicado em 04/02/2026