FRASE, AFRONTA E AS OUTRAS LINHAS
DO POEMA
[Mauricio Salles Vasconcelos]
[Mauricio Salles Vasconcelos]
Lendo-se importantes autorias contemporâneas na esfera da poesia, orientadas por pesquisa amplificada, atualizada, sobre o que significam literatura, livro, história e crítica culturais (Lu Menezes, José Emílio-Nelson, Susan Howe, p.ex), impacta o redesenho/redesígnio da concepção de verso e da noção de lirismo.
Entretanto, modos de entronização de um lugar de poeta/poesia em ancoragem no que é específico, reconhecível, avalizado pelas cadeias de legitimação (mercado-imprensa em todas as plataformas-universidade) em sua garantia de estabilidade, institucionalização (por prêmios, cânones, seleção de padrões em vigor), deixam vazio, redundante, desprovido de historicidade o potencial simultaneamente especulativo e inovador do que se entende como poesia. Em meio a outras áreas e artes, ao contexto de tecnificação e amoldamento da arte em quadrantes acadêmicos (reservados à tradição livresca face-a-face aos dispositivos de texto-som-imagem), a leitura do que é publicado/publicável nos domínios de um gênero, como esse aqui em pauta, evidencia a manutenção do que não cessa de replicar horizontes já experimentados. Prepondera a reciclagem sem-fim de acentos modernistas (recauchatudo ideário avant-garde), quando não comparece desgastadamente aninhado um improducente e datado estilo pós-moderno (presa ainda da modernidade em seus recursivos procedimentos mais parafrásticos do que potentemente paródicos, instalados já, no contexto global-politik-tecnotrônico da hora no qual a arte se culturaliza dentro de patterns temáticos, corporativamente consentidos entre likes e estrelas pseudocríticas sumarizadas pelas cotações/bolsões do gosto dominante).
“Não há entrelinha. Existe a linha” (ecoa um depoimento de Ana Cristina César, gravado em cassete durante um encontro da Faculdade de Comunicação da UFRJ, no início da década de 1980). Mulher, teoria, poesia —
A começar do que antes se entendia nas demarcações métricas de verso, compreensíveis agora como linha composta sempre da mescla de discursividades que se referem à frase (a uma política de construção e corte entre períodos, alíneas moduladas ritmicamente, próprio da poeticidade), despontam o alcance, o envolvimento com o desafio criador de um texto de poesia quando se nota a concepção do que se fraseia, versifica, varia, ritmiza, enfim, de linha a linha. Com a desmetrificação procedida na modernidade, o construto frasal do poema corre o risco de se tornar um “pedaço” de discurso, um fragmento de mensagem (em negação do dado não-comunicacional, plurívoco, do escrito em poesia).
Perde-se o que é transformador, incitador em arte para abrangência de vertentes implicadoras de reconfigurações do já conhecido e inscrito em segmentos disciplinares, tantas vezes em nome de causas justas, validadas unanimemente numa ordenação de seu potencial politizador. Quando não, enraízam-se na crença do testemunho direto, da recolha bruta do cotidiano, do confessional, da subjetividade essencial a ser captada em literatura para desbravação de veios surpreendentes, multiplicadores de um lugar impossível de se estabilizar como uno, identitário, socialmente estabelecido (a serviço do mainstream, pretensamente disparador de diversidade sobre o que é político, em nome de, deixando de ser radicalmente poético, isto é, proliferamente propositivo).
Tantas vezes inscrito na assinatura, na lavratura de um nome de poeta, de um estilo, dissolve-se o essencial da vocalidade e do vigor da linguagem que irrompe a contar de uma língua. Porque a poesia, em sua livre enunciação – destituída do erguimento de um enunciado para existir, sem o auxílio de um entramado composto de tempo-espaço-personagem como se dá nos termos da narrativa – trabalha com um idioma e neste redefine pronomes – nomes próprios – conduções verbais, declarativas. Para além do fecho retórico de um artífice em reverência a um “gênero literário”, a uma emissão centrada em um sujeito central e final de um escrito tantas vezes conduzido como discurso referencializado, endereçável, entabulador de um diálogo prévio com quem o lerá.
Sim, um discurso se impõe como se fosse decurso do que se lê como garantia de poesia com seu aval nos tempos consolidados por um gênero, glosada simplesmente pelo toque trendy do momento. Falta ritmia de um escrever em um preciso tempo, sob a sintonia sônica-conceitual de um momento não vivido antes, embora indissociável de uma tradição e um universo escritural com suas voltagens amplificadoras da história, das histórias da literatura reportáveis (não apenas como referendo eternizante, envernizado em seu panteão enciclopédico) para serem rearticuladas em sua descontinuidade, num irrompimento multívoco de fatores não linearmente dados. Apenas agora.
No poema dos autores em atividade exposta por edições de livro, na atual década, nascidos depois ou antes do presente milênio, é observável como se desfalca a pujança de enfoques reveladores de uma época, como pôde ser apreendido no período da chamada geração marginal (especialmente, o que é dado a ler na antológica reunião de variadas vertentes realizada por Heloisa Buarque de Hollanda, em certo momento histórico, no rolar da ditadura militar brasileira, em dissenso com as delimitações legadas pelo paideuma concretista, há exatos 50 anos).
Nosso instante milenar, já não tão novo, rumo ao fim de sua 3ª década, anunciado por prospecções de toda ordem, porém tributário de regressões e impasses em face do que legou o último século, muito tem a ser desvelado e combatido com todas as variações das culturas do corpo e das abordagens crítico-culturais acerca da moldagem technoglobal feita pelo capital transnacionalizado em todos os setores de saber, vida e trabalho.
Fica a reboque da liricização, do endereçamento a repertórios reconhecíveis, replicados, a uma música hiperreptida, evocadora do que já foi e busca continuar a ser assim ante a macroeconomia sistêmica, endêmica, em suas violações de coletividade e comunitarismo, de criação e conhecimento. O traço minoritário vindo de tantos autores, em vez de ser motriz de estratégias conceptivas, ético-estéticas inovadoras, reitera um autorreferendamento incapaz de se desacorrentar do entendimento já operado por lutas e denúncias não mais concernentes à cena complexa de implicações e interrelações do presente.
Afronta[1] ---
Feminização do escrito como sonda baralhadora de lugares emissivos, que intervém na recepção do que se plasmou como lírico, redobrado pela subjetividade de uma temática de mulher (como se timbram incontáveis dicções atuais) Ana Cristina César (presença constante, reinvocada, mesmo involuntariamente) –
Meia-noite. 16 de junho
Não volto às letras, que doem como uma catástrofe. Não escrevo
mais. Não milito mais. Estou no meio da cena, entre quem adoro
e quem me adora. Daqui do meio sinto cara afogueada, mão gelada, ardor dentro do gogó. A matilha de Londres caça minha maldade pueril, cândida sedução que dá e toma e então exige respeito,
madame javali. Não suporto perfumes. Vasculho com o nariz o
terno dele. Ar de Mia Farrow, translúcida. O horror dos
perfumes, dos ciúmes e do sapato que era gêmea perfeita do
ciúme negro brilhando no gogó. As noivas que preparei,
amadas, brancas. Filhas do horror da noite, estalando de novas, tontas de buquês. Tão triste quando extermina, doce,
insone, meu amor. (César, 1982: 77)
O desalinhamento – desformatação nos termos da tekhné escritural de hoje – de frase-alínea se faz em compasso com a mescla de prosa confessional, de anotação afectual, que emite o escrito, paralelamente â desmontagem dos acentos líricos e dos valores contidos em poesia de mulher (um debate pontual em muitos dos textos críticos produzidos pela excelente teórica que foi a autora de A teus pés, o livro vermelho de paixão e poesia de mulhereshomens atuais desde os 1970s). Entenda-se, também, neste caso, a própria posição feminista sendo investigada entre a imersão e a exteriorização do que pareceria apologético, íntimo, intransferível no que toca a uma realidade de gênero. Malvada e pueril, sedutora e cândida, modelo Mia Farrow e madame Javali, a vocalização intimista do poema-anotação, quase um bilhete nervoso reconfigurado por um senso construtivo de colagem e recombinação de prismas no que cerca o feminino enquanto escrita, dá nítido destaque ao estar simultaneamente dentro e fora do que se plasma marcadamente interessado numa interlocução leitora.
Do mesmo modo que se atira no delírio da captação de flagrantes de uma vida em grupo, entre muitos – “Estou no meio da cena, entre quem adoro e quem me adora.” –, avivando um andamento parodístico. Deixa de crer em si, em um posicionamento finalista, afirmador de um eu enunciativo correspondente ao timbre autoral. Pois faz emergir as “noivas” (ficcionalizadas por alianças duradouras), a meia-noite dos dias correntes e finitos, os perfis contrastantes do que pertencem ao chamado fórum íntimo e às marcações culturais próprias de um poeta-mulher nos domínios do literário.
Numa aparência falha da escrita-de-si, não remete a si, porque quando parece se revelar, há um titubeio, nova volta à linha dispersiva, cumulativa de ângulos iterativos de um sujeito no singular entre contrastes imagéticos. Impossível, escapar do cênico ver-ser visto agonístico: inseparável panorama do amoroso vínculo entre alguém-alheio, entre o íntimo e a intimação ao mais avesso, adverso chamado imantador.
O ser-de-linguagem em primeiro plano é o que desponta na produção de poesia. Em sua liberdade enunciadora, experimental, sem cessar, foi confundido romanticamente com a extravasão de um Eu inteiramente demarcado (fundamentado por uma filosofia, caso de Fichte). Uma vez que afeta e, no mesmo embalo, esvanesce sob a fragmentação da frontalidade emissiva (vinda de uma superposição prismática através das variantes frasais, associadas a uma situação, a uma peça de linguagem):
Eu/meu amor mostra-se de fora. Performa, não preestabelece um lugar e uma fala como planos assegurados para uma reiteração já dada numa origem – de classe, etnia, gênero. A sexualidade, o hiperdito amor, a poesia são públicos, porque se apresentam na exterioridade de uma encruzilhada conceitual e inaugural da linguagem. A escrita é esse agon – ver-se entre muitos outros, olhos alheios da leitura e dos dados reais de uma autora – em derivação, em decifração. Trata-se de algo intenso – feito uma confissão –, crescente em sua transitividade – avesso, contudo, ao que seria declarativo de uma tomada disciplinar de ponto-de-vista. Impõe-se seu caráter disperso de letra imantadora de leitura – tamanho é seu embalo interpelador –, a um só tempo cifrado em sua pulsação ambivalente, tomada de crítica aos valores sobre amorosidade e imersa no caudal contraditório de figuras e forças representativas de uma primeira pessoa do feminino.
A poesia como embate revela sua ritmia performática capaz de escandir em cada linha enunciada – numa frontal, feminizada, primeira pessoa – o que contêm as anotações produzidas para si (de olho em seus muitos outros implicados) e o reservatório lírico do literário. Faz ativar um percurso tão intensivo quanto intimista, por meio do qual o extermínio do “doce, insone” amor, no cerne de uma multidão de amores (Dylan Thomas poderia ser acrescido aqui), de uma cena pública, dispõe a escrita como uma pauta de enfrentamentos –
Um palco (contrário à representação de uma verdade, de uma expressão direta, disposta em versos)
Onde modulações inacabadas, nada apaziguadas, de uma primeira pessoa se desnuda “no meio da cena”, sem abdicar de seus revestimentos figurais, semânticos, simbólicos, incapaz que é de voltar às letras, nos interiores de uma dinâmica sempre externada, abeirada da “catástrofe” do que não se diz quando se busca dizer poesia, autoria, identidade. Desejo é o que se afronta –
Ana C. revolve, reitera e põe relevo no que tantas vezes escapa à fácil fluência do que é poder, não simplesmente empoderamento, apossamento. Embate, combate, enquanto enlace. No mesmo movimento em que se firma a desconcertante frase-sequência de Correspondência Completa: "O livro é anterior. O prazer é anterior, boboca" (Ibid., 89).
Porque se escreve ainda a amorosidade em poesia, modulada por uma primeira, em falso, pessoa, textualmente dada linha após linha. Amor incontornável, impositivo e irrefreado, por quem? De quem?
Tão logo surgido para ver-ter-ser, se extermina. Sem que o nome Ana C. se retire da redobrada, desdobrada e desbordada emissão-interlocução (final e fomentadora do fim em suspenso do poema, quando mais se conclui num desacordo rímico-rítmico inaugural, segundo Agamben),
“meu amor”.
[1] Sublinhe-se o dado que a poética de Ana C. se constrói em diálogo interminável com o afrontamento do desejo (tal como se apresenta “Por afrontamento do desejo” na linha inicial de “Nada, esta espuma”, com o sequente suplemento “insisto na maldade de escrever”).
Referências
AGAMBEN, Giorgio. “O fim do poema’. Trad. Sérgio Alcides. In: Cactus –
poesia & crítica. São Paulo, 2002, no. 1, p. 142-149.
CÉSAR, Ana Cristina. A teus pés. São Paulo: Brasiliense, 1982.