21 de fevereiro
(Ana Cristina Cesar)
Não quero mais a fúria da verdade. Entro na sapataria
popular. Chove por detrás. Gatos amarelos circulando
no fundo. Abomino Baudelaire querido, mas procuro
na vitrina um modelo brutal. Fica boazinha, dor; sábia
como deve ser, não tão generosa, não. Recebe o afeto
que se encerra no meu peito. Me calço decidida onde
os gatos fazem que me amam, juvenis, reais. Antes eu
era 36, gata borralheira, pé ante pé, pequeno polegar,
pagar na caixa, receber na frente. Minha dor. Me dá
a mão. Vem por aqui, longe deles. Escuta, querida,
escuta. A marcha desta noite. Se debruça sobre os
anos neste pulso. Belo belo. Tenho tudo que fere.
As alemãs marchando que nem homem. As cenas mais
belas do romance o autor não soube comentar. Não me
deixa agora, fera.
O acontecimento já se inicia no (anti) título do poema (mera sinalização de dia e mês, feito uma notação fortuita, arrancada do fluxo de uma situada, linear temporalidade). Para que uma performance da escrita se desenrole, enquanto peça tão referente quanto magnetizante a contar da datação simultaneamente incisiva e intransitiva, circunstanciada e parcial (tão só e particularmente 21 de fevereiro, como se o livro fosse um diário sem necessidade da menção de ano a mais nenhum leitor senão o alguém que escreve numa intimista interlocução) o texto indicia as trilhas (linha por linha) de um ingresso, uma incursão no espaço denominado Sapataria Popular. Por uma escrita em ato. Em carne viva. Ao se tomar, p. ex., um escrito circular, cambiante/interpelador desde fins dos anos 1970: “21 de fevereiro” (por Ana Cristina César).
O que ali se plasma de flagrantemente histórico o é numa expansão de enlaces, intrigantemente pluralizada –
História(s) de um corpo e das sexualidades em emergência, envolvimento –
Genealogias de uma época através de uma espécie de anotação frágil, recalcada, por força do brutalismo de uma situação mostrada como autoexposição. Ao mesmo tempo em que se dá a revisita ao universo da literatura (entre o inefável presentificado pela menção a contos infantis populares e a modernidade desencantadora do spleen baudelairiano e do “Belo Belo”, de Bandeira).
Curioso, ver, no jogo sempre acentuado pela fabulação do confessional – com os sinais emocionais e efêmeros da notação e sua vaga data –, a intensidade do que se diz a intervir em um tempo presente e premente, quando se tem sempre no horizonte a fiação finita da existência de Ana Cristina César enlaçada à constante releitura de seus poemas ao modo de um marco/marca em retorno sempre – Ela, a recorrente autora, movida pela tensão do contato, pelo tesão de sua autoincursão indagativa dentro dos limites textuais –
CANAL CURTA
Quando, de modo impactante, é revelada num contato depois de muitos anos, enquanto geradora de signos novos, os mais recentes polos de uma desbravação que chega até a terceira década dos 2000s –
Ali, em Ana C., sua poética híbrida de prosa se dá num espaçamento confrontador – Sapataria Popular –, lugar de liquidações e rebaixamentos. O sublimado, como referente a algo de segunda ordem, aponta para seu poder giratório. Ganha verve a contar da velharia (Rimbaud sobe à mente, com sua alquimia do verbo, “vieillerie poétique”, nutrida por embates tanto culturais quanto sexuais, no calor de sua hora acentuadamente histórica e desalinhadamente existencial) – “A mais atualizada investigação de si ocorre quando “Entro na Sapataria Popular”, tipo de loja em vigência até os 1970, em reciclagem nos new bazaars – A um só instante antiguidade e presentidade, bem ao gosto cover das muitas estéticas do contemporâneo –, a Sapataria Popular (trazendo certo trocadilho com a homossexualidade das mulheres numa gíria algo pejorativa) é onde vai se alojar um relato ruminante acerca dos afloramentos de ser e sexo.
O primitivo assolador, com sua cena de origem, e o fresh em liberação incessante estão contidos no enigma ambivalente de um testemunho-de-vida. Algo não redutível a embates simplesmente duais, ante os quais a saudação da beleza moderna – extraída de Bandeira – se mostra inseparável da dor. Um constante incurso baudelaireano, desde a citação dos gatos pontuais no Spleen do autor francês até o “modelo brutal” (referido a “Baudelaire querido”), bem põe à mostra que a escrita não se vinca de corpo inteiro e faz trânsito para outros tempos, se não combinar o revolvimento de uma tradição com a instauração do que há de mais momentâneo (formulação essa, inclusive, própria do esteta e poeta da modernidade). É quando se instala a pura pulsão, nesse caso de animalidade, mulheres (das gatas borralheiras às alemãs em masculina marcha) e registros verbais os mais diversos tomados num fevereiro (auge do verão brasileiro, clima escaldante e corporal febre de um mês típico, com suas promessas de festas/férias no pico mais quente da atmosfera) registrado como nota de diário, um paratexto sempre fake (ao modo de Nietzsche e Deleuze na filosofia, como também Welles e Lynch no cinema), ainda assim trazendo um teor de algo verídico captado em abismal flagrante, na sua voltagem de iminências não apenas pessoais, pelas mãos de Ana Cristina.
Através desse exemplo poemático, nota-se um palmilhar de planos capaz de dissolver os domínios rígidos entre linguagem escrita, teatralidade, performance e outras modulações de ato.
Experimentamos, no cerne da contemporaneidade crítica de vanguardas programáticas, porém impossível de descartar a novidade da forma em compasso com o investimento no presente (libidinal, crítico, clínico e desvendador, em muitos âmbitos discursivos, do que apenas ocorre agora), a passagem para possibilidades capazes de desmontar a prosódia e a empostada significação cerrada de um texto. Pulsa no escrito – sem a aura de um título, vibrante pela condição vicária de nota – um ingresso multivetorial para o que se entende como literatura agora e a inscrição de uma cena (invocação de um trauma em convivência e escansão exposta, “ferida aberta” no processar construtivo poemático), não apenas reportável à transposição de imagem, verbo e movimento para um plano abarcador, alusivo a uma possível generalidade.
A literatura de 21 de Fevereiro relê, remonta, recompõe um locus misto de violação e afrontamento do que lhe é alheio e imanente, brutalmente culturalizador e componente de um aprendizado corpóreo, sensorial, somático, com o adverso e diverso de uma primeira pessoa (ser em escrita e ser-de-linguagem).
De novo, o novo ressurge e se insurge: a poesia é uma questão urgente, alguma coisa clamorosamente viva, numa correspondência mobilizante e multidirecionada no seu desdobrar de facetas. Através dos atos de corpo presente não apaziguados no fecho de um texto e na rolagem datadora, definidora da História (da literatura, aí inclusa, difusa, pressuposta).
Referência Bibliográfica
CÉSAR, Ana Cristina. A teus pés. Rio de Janeiro: edição da autora, 1979.