Corpos de noite interna
Para Y., C., F. e A., com carinho.
Quando esta pele na superfície do leite, inofensivo, fino como uma folha de papel de cigarros, minado como um corte de unhas, se apresenta aos olhos, ou toca os lábios, um espasmo da glote e muito mais abaixo, do estômago, do ventre, de todas as vísceras, crispa o corpo, pressiona as lágrimas e a bile, faz bater o coração, bijuterias na frente da mão. Com a vertigem que embaça o olhar, a náusea que me curva, contra este creme de leite, e me separa da mãe, do pai que estão presentes. Deste elemento, signo de seu desejo, “eu” [je] não o quero, “eu” não quero saber de nada, “eu” não o assimilo, “eu” o expulso. Mas por que esta comida e não um “outro” por um “eu” [moi] que não sou em seu desejo, eu me expulso, eu cuspo em mim, eu me abjeto pelo mesmo movimento pelo qual “eu” finjo me posar.
– Julia Kristeva.
Numa sociedade claudicante como a brasileira, donde sua hybris manifesta-se aos escrúpulos da Lei apenas nas festividades carnavalescas, em que a divindade de um “ser interior” ignora toda a extensão política pelo gozo angustiante do abismo que separaria cada indivíduo parido e carente de alteridade, cuja corporeidade é profana e profanada, as crianças, sempre filhas de mulheres olhadas com regozijo como sedutoras da pureza, donde seu ser é ele próprio antes mesmo de vir a égide da virgindade, e a concupiscência penetra os olhares e os os corações, mulheres cuja alma é dita pela expectativa de um homem qualquer, suas peles pela transformação de parcialidades de seus corpos – a entonação das gargantas, o crescimento dos seios e das ancas, tudo isso proporcional ao dízimo –, em que não pode ser mulher aquela que por infortúnio se torna, uma menina crescida na apática arquitetura de uma pequena igreja neo-pentecostal na quebrada de Uberlândia, que decorara a Gênese e o Apocalipse sendo assim querida pelo pastor que regalava-se a ela, põe-se ao mundo (caso haja medida amoral para tal) precocemente.
A reação que julgara mais adequada ao exílio condensado de infortúnios no Lagoinha fora buscar o local de trabalho mais óbvio. O boteco já fechado na avenida João Naves com suas duas pistas, estações de ônibus fechadas, seus poucos carros circulando, ritmavam com as meninas; um cara de uns quarenta anos, suficientemente calvo e orgulhoso da própria ereção conquistada com viagra, chega em Lira conversando como se conversa com qualquer pessoa, essa honestidade agradou Heloïse. Invejando a nova colega, cuja bunda e a postura agressiva superavam as dela, atravessa a conversa e negocia um boquete por vinte reais. “Eu sei como é uma língua numa glande”, ele goza em sua boca após um trabalho violento, como se sentasse no órgão vil; recebe mais uma nota de dez. Voltando à esquina Lira aos berros com o que pareceu à menina uma figuração. A atravessada sai puta rumando para a praça do Fórum e, de cabelos rosas, aquela menina fica, paralisada, na esquina. Visivelmente não era puta, mesmo usando minissaia, mesmo com as marcas de perlutan delineando seu rosto. Aproximando-se, Heloïse mira um olhar insano, cansado; tudo isso a fascina. Obsedada, puxa conversa, têm algo em comum, tretar com Lira.
– E qual é seu nome?
– Penélope; e o seu?
– Helô.
E pela primeira vez tem coragem de olhar nos olhos da menina, o que soma-se à tristeza que já sentia. “Não é muito mais nova que eu, mas isso, ai, nada contra, mas porra”. Toda a beleza de Heloïse obnubilada pela percepção, Penélope que todavia não cessou de um interesse sublime, feminista, antropológico. Expediente consumado pelo intempestivo encontro. Penélope em nada deseja flanar, está fatigada demais para isto. Durante a caminhada passaram por outras travestis em frente o Bar das Famílias, todas batendo ponto, nenhuma ignorando a sensação estranha que, em razão do portar de Heloïse, parecia um casal, a homossexualidade interdita – verdade do amor, trannydykes to watch out for. Chegam em sua casa, oferece uma dose a ela – não para de tentar seduzir o inseduzívelmente lascivo. Depois de assistir Vingadores num péssimo dia com seu ex, Penélope tomou ideia de que o melhor modo de ouvir o que se quer é falando o que querem, logo, conta sua história. Heloïse retribui-lhe.
– Meu caso é diferente do da Lira, que, aliás, eu nem sabia. Fui abusada, sou abusada de dentro de casa mesmo – a pragmática gelada perturba Penélope, que arregala involuntariamente os olhos, que sente um fisgar anal –, ENFIM, pela minha mãe; ela praticamente me obriga desde os onze anos a fazer programa e eu meio que acostumei, tenho uma cota de dinheiro pra pôr em casa e é isso; hoje em dia a gente só sai no soco quando ela inventa de passar a mão em mim.
Após respirar, fazer a menina sentir seu horror pois necessitava de empatia mesmo que, em seu juízo, a mais desafortunada fosse a outra, à coisa, à realidade correspondente:
– Eu boto fé. – E a cachaça dispara.
– Tipo, já não basta ela ter me arregaçado quando eu tinha seis anos.. Até hoje.. .. E eu vou viveno, sabe? É um clichê esse negócio de travesti-puta-vítima-de-pedofilia, mas fazer o quê? – começando a passar a mão esquerda, que estava à disposição, na perna da libertiina, tem ela pega, devolvida para seu colo, e um sorriso a ocultar toda tensão, a volúpia sórdida coibida sem nem que percebesse – Aí comecei a usar hormônio ano passado, odiava aquilo, cê sabe; chegar em casa e ter que ouvir “Helan” é um suplício quase tão disgraçado quanto quando ela passa a mão na minha bunda, nem de longe dar presses véio no meio da rua é tão ruim quanto ser chamada assim.
– Sei bem como é, quando eu volto pra minha cidade é a mesma coisa; (para, podera a prosódia) “a mesma coisa”, cê entendeu.
– Ah, mais é uma delícia toda essa transformação do corpo; eu gózo passando a mão nos meus peito... Nossa! Cê sabe.. E tem a fita do trabalho também, consigo mais cliente agora.
– Sim, cê acaba por seguir a função do feminino que caracteriza o trampo.
– É! Mas isso é de tabela, vira ferramenta. Importa é eu tá bem comigo.
A alagmática estética de Heloïse, sua pele permeada de inveja, tesão, admiração, tudo isso fez-a calar; mas não podia, Penélope tornou a momentos já contados, detalhes mórbidos.
– Deixa eu chutar, foi por causa da Odisseia que cê escolheu seu nome né?
– Sim – responde numa suavidade inaudita, e sorri –, quando eu era mais nova era um livro muito importante pra mim.
– Sabe uma fita que me deixa puta?
– Hum?
– O enforcamento das servas ter só uns dois versos!
– Nossa, cê é a primeira pessoa que me diz isso; é uma parada que sempre me pegou.
– Saca? Na Ilíada todas as violências entre homens são descritas minuciosamente, aí quando vão enforcar as mina só porque tinham transado, e nois nem sabe se queriam, dois verso só; é de fudê.
A loucura helenista faz-a soltar-se, como se o horror fosse uma peça antiquária traduzida por Carlos Alberto Nunes. Cogita ceder aos flertes, chupar o cu da menina até sua língua ter câimbra.
– Nois é tudo serva no fim dessa história.
– Fim? – pergunta filosoficamente.
– É, agora, amanhã; até sei-lá-quando. Ah, depois que saí da igreja que fui atrás desses trem, antes conhecia só a Bíblia.
– Interessante.
– Eu era meio queridinha do pastor, decorei muita coisa, mas hoje esqueci tudo. Tinha certeza de que ele fosse me estuprar em algum momento, me chamava pra sala dele, nois ficava sei-lá-quanto-tempo conversando, ele tentava me ensinar as parada mas eu discordava das interpretação, e isso fazia ele ver futuro em mim, falava; tipo “se eu consigo manipular o texto sagrado, consigo manipular o povo”; só precisava de orientação e, passiva como era, ia seguino o bonde; mas com a prostituição tava me pareceno absurdo demais, e ele sabia, me via na rua mas passava reto; as tiazinha fazia fofoca, mas ficava por isso; os culto, tudo do mesmo jeito, aquela falsidade, saca? Ele gosta do pecado; era católico antes, mas resolveu ganhar dinheiro; acho que ainda tinha aquela parada de que “pecadores são mais queridos por Cristo”.
– Nossa, que insano. Eu realmente não manjo dessas parada, nunca me liguei em religião, só sei, saca, Facção, “que aqui no inferno até o diabo tem perdão VAI PRA CIMA, QUE TODA MINA MERECE MISERICÓRDIA” – seus seios enrigessem torpes.
– Nossa, que lindo..! Pira que sempre quis ter uma irmã? sabe, tipo Abel e Caim, mas Abel mulher, que nem na anti-teologia. Na minha cabeça a gente ia ter um amor incestuoso, nois ia sofrer junto a mesma disgraça e no fim matava nossa mãe.
– Bem grego haha! – forçando simpatia apática.
– Demais.
Prostrada depois de tanto dispêndio, deixa escoar discursivamente o tesão contido após ter ouvido a rima.
– Mas então, e seu nome?
– Ah, é que todo mundo me chama de Helô, mas na real é Heloïse.
– Pode crer.
– Acho que vi num filme, num sei.
– Hmm, curte cinema francês?
– Vi alguns, aparece nuns sites de torrent e vou lá e baixo.
– Massa.
– Meu favorito é aquele do Godár, Vivrre sa vie, a atriz, mé quela chama mesmo..
– Anna Karina.
– Isso! Não que ela interprete realmente tudo que nois sente na prostituição, mas aquele filme mexe comigo; muito.
– Sim, acho que é um dos melhores dele.
– Vi só esse e aquele Pierrô le Fu, mas é um dos meus filmes favoritos.
– Cê podia ver O Desprezo, é mei que baseado na Odisseia.
– Pode crê... Sei-lá. Me veio na cabeça agora um menino que trampava comigo, o Pedro; claramente trans, mas não transiciona. Ele é mais feminino que você até.
Penélope se sente ofendida, de praxe, mas diz para si “tudo bem, tá, não é a primeira vez”.
– Ele que me introduziu nessas parada; livro, filme e pah. Mas o Pedro meio que sumiu. Falam que ele começou a sair cum cara da UFU que começou a fazer programa com ele e nois só vê ele passando, dá pra trocar três palavra no supermercado e só.
– Hmm.
– Tem ideia de quem pode ser?
– Ah, muito cara; tenho ideia não.
– Hmmm.
– Ele sempre foi muito calado, trabalhava direitinho, nunca deu trabalho; um ano mais novo que eu.
– Quantos anos cê tem mesmo – como se já soubesse.
– Dezessete.
Suficiente como uma calda num bolo batizado.
– É, cê já viveu uma cota; num tem cara.
– Me dá quanto então?
– Sei-lá, minha idade.
– E cê tem quanto?
– Vinte e um.
– Quero chegar até aí.
– Você vai.
Com este consolo Penélope que chegou ao coração de Heloïse formando um acalanto, se despede; a menina dorme no sofá irregular enquanto a outra sonha terrores que só poderia penetrar se desejasse. Na imanência onírica, vê ela caindo por rochedos num céu agradavelmente nublado – única figura da qual conserva em memória.
De manhã, na vigília delira o juízo de Lira, suas penitências por tudo que fez. Mas nada acontece. Heloïse acorda, de ressaca – e a de Penélope subsume-se à dela –, aquela que pensa ser sua nova amiga cuida dela como a criança de que nunca cuidou. Dá-lhe água, cozinha um baião-de-dois e pica um tomate que dividem; para rebater compra duas latas de Bavária, uma para cada. Tomam em silêncio, apreciando a comida, a companhia uma da outra meio aos ácaros pululantes do sofá e a poeira dos parcos móveis. Lira liga pedindo desculpas, diz que tava descontando nela a raiva que teve duma travesti que tinha acabado de atravessar um programa dela e que isso já tinha acontecido outras vezes, Helô pergunta quem era e Penélope, que mal abrira a boca durante a ligação, diz que nada de relevante enquanto sentia seu coração cheio de grosso sangue.
(Usando a expressão de Jack Will), nascida, crescida e exilada na cidade de Uberlândia, Ana Abrahão – dentre vários predicados copuláveis – “é” escritora, ilustradora e revisora de trabalhos acadêmicos e literários. Dentre seus trabalhos publicados, há Impessoalidade estética: esboço acerca dos critérios da sensação, e Ruptura Endocrinológica: Uboa e o ser-trans na música, presentes nos livros Deleuze e Guattari: pensar em veredas que se bifurcam vol. 2 arte e literatura, e Subversões: Ensaios de filosofias insubmissas, respectivamente; bem como o poema fugere non possunt, presente na Antologia Subsolo 2026. Trabalha na companhia de Bilinda, uma siamesa viralata bastante esnobe e fofa.