“Seu Bicudo”
Menino, durante os populosos almoços familiares a situação ficava tensa.
Por uma questão de simetria, formava-se um Triângulo das Bermudas entre meus olhos, a boca do Senhor Bicudo e a maionese. Esta era enfeitada com um cogumelo feito de toco de palmito coberto por meio tomate escavado.
Eu era eterno candidato a comer o “cogumelo”, desde que um perdigoto do Bicudo não o atingisse.
Invariavelmente, ele (o famigerado Senhor Bicudo) erguia-se para pronunciar um discurso> louvação à nossa família.
Minha mãe e eu sabíamos o que certamente aconteceria, mas estávamos em campos opostos: ela afirmava que o orador não lançava perdigotos e eu, com olhos que iam do zoom ao microscópio, que sim.
“sinto-me, ilustre família que me acolhe nesta Páscoa (Natal, aniversário, casamento), alagado de amor por esta harmonia que resplandece nos espelhos e castiçais desta casa. Postulo...”
Santo Deus! Pra quê um notório arremessador de perdigotos tem que pronunciar “postulo”?
Na misteriosa contraluz, rebatida pelas cortinas de voil, um cristalino perdigoto inicia seu voo fatal. Posso vê-lo girando num desempenho quântico. O coração em extrassístole, apostando no desvio de rota.
Calculo paralaxes, embora tenha certeza de que o diabo existe e comanda pessoalmente a aterrissagem> perfeitaquiuspariu!
O módulo lunar de cuspe pousa bem no topo do meu cogumelo> palmito> tomate!
Olho pra mamãe, sei que ela não viu o que vi, faço cara de que um dia ainda matarei Seu Bicudo. Tomo um tapa no topo da sinagoga. “Para! Deixa de ser cheio de histórias...”
Só a memória e um exame de dna sabem que tenho razão, pois o perdigoto forma uma bolha arco-íris que explode em um nanossegundo, eliminando toda evidência de crime.
As primas Pantone
Consolo não me faltava: havia a siesta, quando todos se esparramavam pelos cômodos e escaninhos da alongada casa. Meu lugar era no quarto das deliciosas primas encalhadas (já tinham 23 anos de solteirice!), que me recebiam com gulosos beijos na boca e abraços apertados contra os peitos fellinianos.
Aqueles fartos peitos, que tremelicavam e ondulavam quando, provocando-se, elas dançavam esfuziantes rumbas.
“El cumbanchero A cumba, cumba, cumba, cumbanchero, A bongo, bongo, bongo, bongocero. When in Cuba you can do the cumbanchero, bongocero que se va Bongocero que se va Hear all Havana bongos drum, Bum bum ba. See all Havana guitars strum, Tum tum ta. A cumba, cumba, cumba, cumbanchero, A bongo, bongo, bongo, bongocero. When in Cuba you can do the cumbanchero, bongocero que se va Bongocero que se va Cumba!”
A vida toda evitei escrever sobre essa novela familiar, que Fellini mostra à perfeição.Ele torna plágio as tentativas de escrever sobre italianos de qualquer parte do mundo.Porém, isso não é problema meu. Escrevo o que vi e senti naqueles momentos quase pagãos. Uma visita a Pompeia, e todos os tios e tias reaparecem nos murais em seus afazeres cotidianos: refeições, teatro, música e sexo.
As primas e suas cores, transfiguradas em nuances que só as latas de talco antigas atingiam... Bicos de seio french rosé escapados de sutiãs de teia de renda negra, línguas magentas serpenteando entre os dentes muito brancos, vaginas dark pink por um átimo vistas no descuido de um peignoir entreaberto e de uma calcinha escorregando (movimento de quadril oposto à órbita do tronco).
Por muitos anos martirizei minha imaginação com a hipótese de que, se eu imitasse um cachorrinho, deitando de barriga pra cima, elas abocanhariam meu pepininho, dizendo camuflagens do tipo “de quem é o pepininho rosadinho da primiiinha?”. Ao que eu retorquiria (palavra que hoje juro certeira para a situação porque retorquir sempre foi o desenrolar do pênis do garrote da cueca e seu emergir pulsante no ar boudoir): “o pepininho é das primiiinhasss!”
Os poetas vivem desses momentos pantone. Após percorrerem trilhões de sinapses, as palavras caíram, 19 anos depois, como folhas de outono, num nostálgico poema:
já não
sei se
é bom esperar
o quarto onde
o tango tomba
e morre
quente
O bonde
Recentemente fui visitá-lo em sua aposentadoria no Museu dos Transportes: preto e amarelo como uma taturana de aço e lona, ele mantinha o cheiro de esmalte e aço da mais remota infância, cumprindo seu papel fantasmagórico quase um século depois de sua fabricação em sabe-se-lá qual Canadá/Chicago. Fetiche.
Cada milímetro de sua impressionante estrutura nasceu para impeli-lo num Dodeskaden eterno.
Desse bonde, que na esquina da rua fazia a curva e vinha com seu focinho chato em nossa direção, cumpria afastar-se toureando-o com classe. Saltar do bonde andando, fincando os dois pés no chão sem nenhum movimento ondulatório, era a glória, pois a maioria pulava destrambelhando-se em corridinhas chinfrins e descompostas.
A essas aproximações iniciais com o bonde somaram-se camadas de convivência, todavia, não encerradas.
Quando comecei a ensinar-me a ler, via uma placa pendurada num fio onde o bonde fazia a curva. Era branca, com letras em negrito e dizia: “ounção o bonde na curva”. Foi meu segundo pico na veia de poesia: imaginava a alagada delicadeza de quem nos avisava para “ouvir/ounção/unção o bonde na curva”.
Não demorou muito para que eu lesse direito a prosaica, embora delicada, advertência: “um só bonde na curva”, pois duas daquelas centopeias fazendo a curva ao mesmo tempo colidiriam suas caudas. Não é necessário muito mais que isso para virar poeta.
Evitando sonegar informações, dou a terceira epifania poética recebida pelo artista quando jovem. O onipresente bonde levou a mim e meu pai para a Praça do Patriarca, onde num terceiro andar funcionava uma emissora de rádio.
O auditório estava completamente lotado, fomos os últimos a entrar. Lembro-me apenas de uma cena, que me deu todo um repertório poético que só Joyce explica. No palco estavam um escada e Simplício, comediante surrealista malgré lui.
Ele entra rapidamente e diz: “telegrama para o senhor”. O escada replica: “leia, por favor”. Simplício leu enfático: “Partiu-se o pote e morreu os cabrito”. O cara, atônito, arranca-lhe o telegrama das mãos e lê: “participo-te que morreu Oscar Brito”...
Perceber que se podia entortar o ferro da linguagem com um simples truque de comediante foi a mais completa aula de poesia que já recebi.
Recabo
Diariamente, no caminho da escola, eu via um armazém com uma fachada muito alta encimada pela palavra cabalística RECABO.
Tinha certeza de que era uma mensagem cifrada a mim dirigida e, óbvio, nunca comentei isso com ninguém. recabo pra mim eram dragões soltando fogo, magos preparando venenos exemplares, bruxas voando para longínquos sabás. “As bruxas dos Sabás foram as últimas praticantes da Priapéia e da Liberália na Europa Ocidental e, de fato, reproduziam em suas reuniões as licenciosas orgias tão comuns na Roma Antiga”.
Minúscula diante daquela imensa parede, a palavra RECABO, feita de ferro esmaltado, refletia o dia em sua superfície polida.
Falava-me de antigos reinos que eu jurava visitar, principalmente quando descobri existir uma Inglaterra quebra-cabeça onde se encaixavam a Irlanda e a Escócia.
Preparava-me para fundar a religião RECABO, quando extraí de um fardo que estava à porta um adesivo colorido, com a imagem de uma imensa plantação de algodão, encimado pela palavra mágica recabo! Havia um miserável subtítulo: REIS CARDOSO BOTELHO Companhia Limitada...
Momento fundador do ceticismo que me acompanha vida afora.
Olho com desconfiança discos-voadores, milagres e até mesmo o próprio Deus, que poderá se revelar como Departamento Executivo Unidos do Seridó.
Encontrei em Epicuro a sintonia perfeita com meu sentimento do mundo:
“1. Não se deve temer os deuses;
2. Não se deve temer a morte;
3. O Bem não é difícil de se alcançar;
4. Os males não são difíceis de suportar”.
Paralelamente ao “Jardim” de Epicuro, eu me propunha esses desafios. Embora Nietzsche tenha apontado que eles prepararam o caminho para o cristianismo, mantenho esses princípios.
Desde pequeno eu me propunha desafios estoicos.
Um deles era ficar o dia todo vendado para saber da cegueira.
Outro consistia em ficar absolutamente imóvel na cama, imaginando-me enterrado vivo, sentindo que o mundo havia desabado a um palmo do meu nariz. Resistia estoicamente ao desespero, punha-me em longuíssimas apneias intercaladas por sutis tomadas de ar.
Também gostava de ficar em stand by, absolutamente imóvel, sentindo o sangue fluir bem lentamente e imaginando que jamais morreria, porque não me desgastava com nada.
Claro que tentam me provar o contrário, propondo ginásticas mil, mas, a julgar pela cara de pergaminho dos maratonistas, a razão estava com aquele esperto bambino.
Também pretendia provar que o ar era comestível e alimentar-me exclusivamente dele. Piva adorava essa idiossincrasia e me atribuiu a teoria do “ar comestível”.
Sugesta
Adorava viver uma cena de filme noir: vinha caminhando sozinho quando se aproximavam alguns marginais, pândegos, idiotas, ou tudo isso junto.
Percebia que se preparavam para mexer comigo. Era o momento de agregar instantaneamente à minha persona: O Fantasma> O Santo> Marlon Brando> Béla Lugosi> O Fantasma da Ópera> O Corvo> O Lobisomem> O Caipora> Gengis Khan> Calígula> Drácula> As sete pragas do Egito e outras cositas: o Arcidiavolo Belfagor, de preferência.
Os olhos semicerrados, um sorriso-esgar bem tênue e toda melancolia que um miserável ser humano pode carregar.
A cada metro, os caras iam engolindo o riso, baixavam os queixos, recebiam na moleira todo quebranto que emanava de mim.
Abriam caminho, passavam e, às minhas costas, cochichavam: “vocês viram?”.
Adoraria ver o que eles viram, para saber se dava para melhorar a performance. Contentava-me em pensar que eu era apenas um negro gato. Quinzinho, o Vice-Rei da Boca, também aplicava a “sugesta”, segundo contou Hiroito no livro O rei da boca.
“A sugesta”: deixar cair os beiços, esgazear o olhar e inquirir a vítima: “calé?”
Profissão de Má-Fé
Os poemas devem ser gordos
e ter penas
como os frangos
os frangos úmidos dos quintais
os belos frangos
que ciscam o chão &
bicam os pés de urtiga
rasgado o peito
está o coração
pobre balão
sangue suor e nostalgia
amar é passar o dedo
numa agulha de vitrola
as poças d’água
as flores ásperas
os poemas frouxos
cordas soltas de celo
esse som
que vem de dentro
soprado pela boca indizível
que tentamos saber
que tentamos traduzir
essa onomatopéia delirante
que nos obriga a dizer
Eu te amo
quando queremos sussurrar
Ben Close dinamite &
sempre teus lábios matam.
Ilustração: Guto Lacaz
Tyco Ticho no Fubrahe
Livrai-nos Deus da Corrução
Do Chaos da Anarchia
Da Excecionalidade
Tenhamos Tacto y Tecto
Façamos Gymnástica
Combatamos a Infeção
A Sciência a Sucção
Pas du tout W
Aplainemos a Língua
De Pycos Phalésyas y Promonthórios
Circunspeto Aspeto
Evitemos Italianizmos, Francezismos, Españolysmos
Y ultimamente o Abril Portucalense
Sejamos… fotográficos
Optimistas
Sociológicos
Nostálgidos
Sem Nevroses nem Zunzuns
No afã de que o flautim
Abafe o Uivo
Que vem de Nós
Para Mim.
bandeira>cummings>dalí
atento
ao olhar oriente–ocidente
pedras de Pompéia
— mais fontes que gritos —
folhas leaves livres de outono
e. e. e. e.
fragmentos)
volvi a mim:
diga 33
tosse tosse tosse tosse tosse
o senhor tem
um Salvador Dalí
no olho direito
e voyeurismo
no esquerdo
Roberto Bicelli é e não é. Faz que vai e vai. Fez tantas coisas que se arrepende de não ter cultuado melhor a Preguiça. Desde que nasceu, no auge do Século 20, vive enroscado com poesia, prosa e artes visuais. Foi caçador de tesouros com György Forrai, nosso Indiana Jones. Sabe dar nome aos bois e seus livros tem títulos inexedíveis: Antes que eu me esqueça (Feira de Poesia: 1977; Córrego: 2017), O colecionador de palavras (Contexto: 1987), Ego Trip (Virgiliae: 2011), ¡¿Sério?! (Córrego: 2022) e Transes (Córrego: 2023). Não se chama Greta, mas diz com Garbo: I want to be alone. Os textos em prosa apresentados nesta sequência são do livro ¡¿Sério?! e os poemas de Antes que eu me esqueça.