Capítulo 2: Anarcúmenas na pista parte 1
Corpos de noite interna é uma série de publicação periódica, o primeiro capítulo encontra-se aqui.
É... uma menina... Precisa, ela precisa de um abraço; ser acolhida. Linda. Necessidade. De carinho. LIRA. Não. Sai. “Heloïse”, o nome dela. Mãe, ela não tem “mãe”. Podia ter dormido comigo, receber um pouco de atenção; dormir (com), alguém que a proteja. Não, o sol nesse ângulo da janela. Ainda bem que a sala fica escura nesse horário. “Penélope, que que cê tá fazendo?”. Não. Cê não tá aqui. “Quem você acha que é, ein? Tá achano que –”. Eu tô sozinha nesse quarto; mas não nessa casa. Aberta? A porta do quarto ficou aberta? Pelo menos eu tô de calça, e camiseta. Sede. Merda, eu não tenho mais intestino. Agora não; vai acordar ela.
Ao acordar, de maneira alguma queria Pain incomodar a menina no sofá; assim, seguiu seu itinerário ressaquento de escovar os dentes, fazer café e ficar olhando para um vazio determinado pela consciência de mal a la tête sem despertá-la – esforço que foi inútil, mas só se manifestou quando a adolescente, crente de que tinha realizado tudo perfeitamente enquanto degustava o segundo gole de café, ouviu ela se virando, levantando ácaros em superfície desconjunturada. De pronto ela preferiu que alguma palavra fosse-lhe dirigida, o que em nada tardou, pois logo viu Heloïse com os cabelos desgrenhados dando-lhe “Bom dia”, o que se seguiu de “Bom dia...”, e um sorriso coringado, “... como cê tá?”; bem foi-lhe a resposta e logo disse que tinha café na garrafa, de maneira à menina, então, se servir e haver um silêncio menos pulp fiction que os que haviam acontecido-e-desvanecido da noite anterior em direção ao constrangimento, e de uma parte à abstinência de álcool que alguns anos a mais é natural após uma noite de cachaça – bem como tão precocemente invejar um organismo alheio, quando tanto se tem, ainda, para degenerar. Terminado o café, conferiu no celular quanto havia em sua conta no banco; e, num automatismo ébrio, “Tô indo ali, pera”, sendo seus passos desesperados cortados por “Pode comprar um cigarro?” – “Acho que sim” –, e a luz diurna parecer-lhe ainda mais incômoda. No caminho até o antigo Cuca Lenta, vislumbra o Guiomar de Freitas Costa, sem saber exatamente o que na escola a incomodava; nunca lá estudou, nem conhece alguém que sim, e sempre se encanta com as copas das árvores balançando quando venta forte, copas a dez, vinte ou trinta metros de altura. Chegando no boteco pede duas Bavárias e o troco de cigarro picado – “Qual?” – e ela diz que pode ser Minister – “Não existe mais, agora é Rothmans” –, e ela, beleza. Et là, la fille en feu os contempla, lembrando de quando era fumante. No retorno escuta uns adolescentes gritando na parte interna da escola, e se dá conta do que não conseguia formular antes. Chegando em casa, paranoiando se Heloïse havia mexido em algum de seus livros inapropriadamente, com a mão suja ou se os havia tirado de sua ordem intrincada; abre uma cerveja, e em seguida entrega-lhe os cigarros; “Cê tem isqueiro?”, e ela procura onde havia fósforo; “Cê vai ter que acender no fogão”. Sem problema.
E se as palavras que saíam de sua boca botavam banca, menos paradoxal que a própria dubiedade de seu corpo, ela se encolhia, encurvada no sofá onde dormira, a cada gole na cerveja; se sentia à vontade onde, sem se dar conta, queria conquistar espaço; queria uma foyer, e, por isso, cada palavra saída de sua boca deveria ser fria, inda que sem chegar ao ponto de geladinha. “Bora ouvir um som?”, bora (Pain coloca o Facelift do Alice in Chains). Algum contraponto dissonante havia de ser o ancoradouro afectivo da menina, tanto que quando começou o riff inicial de Man in the Box, haviam três melodias – a de Layne Staley; a de Penélope, e a de Heloïse; respetivamente; sendo que as duas últimas buscavam, através da primeira, ficar num uníssono impossível na razão de cada uma das três estar num tom diferente. Justamente nessa busca melódica que se produzia a harmonia, Helô agora encostava as costas na irregularidade do sofá, e ria com os comentários sardônicos de sua nova amiga, enquanto a deixava fazer o almoço sozinha, aceitando – sem mais desconfortos – a cortesia concedida, assentindo ao caráter de “visita” que era-lhe predicado, pois sentia que se quisesse ter lá lugar, teria de ter um mínimo de paciência; se a tudo que era-lhe com caráter de urgência se impunha, seu corpo – denying her maker – remediava o anseio. Cinza, seu olhar direcionado a Pain, em busca de cores outras; com ela, estava. Graus estranhos numa monocromia, de branco a preto, que deseja, pois, escalas diferenciais em si mesma; algo de roxo, de azul, e de vermelho também; outrossim, uma coisa, pequena que seja, que não perpasse forçosamente pela coloração determinada de seu olhar.
– Aliás, cê não tem que ir pra escola não? – diz, ironizando.
– Real, mas já faltei – olha, terna – E ocê, não tem aula também não?
– Tenho, de noite – apreciando a réplica.
– Aula de quê?
– Num lembro; ou, cê pode refogar isso aqui enquanto eu vou no banheiro??
– Posso – sorrindo contente de poder ajudar.
Depois de se intoxicar com o mau-cheiro que seu próprio organismo havia produzido, coisa que demorou uns quinze minutos, Pain volta para cozinha vendo que a água que estava no fogo baixo já despejada tinha sido sobre o arroz-com-feijão.
– Ahh, brigada – e vai à geladeira continuar; enquanto picava uma pimenta pra finalizar o prato, comenta já sabendo da resposta – Ain, queria outra breja.
– Se cê quiser eu busco, tenho trinta conto.
– Ahh, okay; tô quebrada, fim de mês sabe...
– Sem problema.
– A chave tá... Aqui, no meu bolso; toma.
– Brigada.
– Eu comprei aquelas duas no boteco aqui embaixo, é só descer a rua.
E, enquanto estava sozinha, pensou se o bolsonarista da distribuidora venderia pra ela; em como seria o contraste da garota se estivesse no horário da molecada sair da escola; ainda, como a vizinhança reagiria com o mais óbvio acontecendo, outra trava saindo da casa, e se achariam que Helô era a ativa. Até que ouve o portão abrindo.
– Deixei um dinheiro – e usava, como alternativa a “grana”, essa palavra, a fim de soar mais polida – pra pegar uber mais tarde, tudo bem?
E Pain, olhando pra uma sacola cheia de Brahma:
– Que isso! Nossa, brigada!
– Não há de quê. Você não só me deixou dormir aqui ontem... Esse é o mínimo.
– Hmm.
– E a conversa foi muito boa também.
Claque.
– Toma.
– Deixa que eu guardo – Pega a sacola. Claque. E abre a geladeira – Um brinde! – Diz, chutando a porta, enquanto esperava o som do ímã amortecer o impacto.
Cai pro santo um pouco da lata de Penélope, que esperou brindar pra dar o primeiro gole; Heloïse, num esforço sincero de desvanecer o ar protocolar que ela mesma havia instaurado, vira sua lata, dando dois goles seguidos – e em nada performaticamente artificiais – querendo ficar espontânea, quebrar seu próprio gelo. À espera do arroz secar, Pain senta no sofá, cujo braço oposto ao dela guardava o último cigarro, onde Heloïse senta em seguida; por uma falta de jeito com os dedos ao pegar, deixa cair na lateral do móvel, assim colocando sua lata no chão e se esgueirando pra pegar o fumável; a mais velha olha de relance para sua bunda quando ficou empinada por um instante durante o movimento de pesca, sentindo uma coisinha em sua neca – o que, ao vê-la acendendo no fogão com involuntária, natural sensualidade, tornou-se uma ereção –; motivo para uma vergonha hedionda e criminosa, para cruzar as pernas como se a garota não fosse, ao pegar sua lata que havia deixado ao seu lado, reparar e apreciar, inda que com assimétrica pudicícia.
– Faz quanto tempo que ocê parou de fumar mesmo?
– Vai fazer três anos.
– Eu tinha que pará né? – Ela sabe a resposta, mas precisa do assentimento da veterana.
– Ah, esse é seu segundo até agora; no seu lugar, já tinha fumado uns seis desde que acordamo. Acho que tá suave.
– Pode crê – Tranqüila, como se em casa.
– Ai, queria uma tequila. Cê já colou no La Biblioteca?
– Aquele bar de frente pra UFU?
– Isso.
– Já.
– Tem tequila por cinco real a dose lá.
– Pode crê.
– Xô’lhar o arroiz... Vou deixar esfriando enquanto nois termina essas breja, beleza?
Servidas em pratos de vidro, na falta de mesa, comem no sofá, mesmo.
– Nossa, que delícia!
– Brigada.
– Tá ardido, mas dum jeito diferente.
– É carolina reaper, o nome da pimenta; coloquei só um pouquinho porque é “a mais forte do mundo” – diz, fazendo aspas com a mão direita, segurando o garfo com o anelar e o mindinho.
– Amei! Onde cê comprou?
– Na feira aqui perto.
– Foi caro?
– Vinte e cinco conto. Não sei se é a tal “carolina” mesmo, mas dá grau.
– Real. Quanto que cê colocou?
– Coisa de um terço de uma inteira.
– Pra panela inteira?
– Isso.
– Uau.
Com esse “Uau”, terminam em silêncio. Tocava How Soon is Now do Smiths, baixinho.
– Posso comer mais?
– Só se eu puder pegar outra breja.
– Então feshow! – e enche o prato pela segunda vez – Essa tal de carolina dá gostinho de quero mais – ela pega um copo pra tomar água da torneira, mas a tonteira apimentada faz-a derrubá-lo.
– Relaxa, eu limpo.
Abaixa-se e pega um caco, o nariz coça e dirige a mão que pegara o vidro-quebrado para coçá-lo, sente que Heloïse está metendo nela, sente cheiro de cu emanando do dedo; sublime; coloca o pedaço do copo devolta onde estava, movimento que a apazigua, até então retornar a recolher o conjunto. Toca o telefone, tal qual uma objetividade que perdelira como manifestação de um real irremediável.
– Alô.
– Oi, como cê tá? – diz Lira, tanto quanto desesperada.
– Bem.
– Olha, desculpa por ontem; eu tava com raiva doutra coisa, duma mina que tinha atravessado um programa meu, acabei descontando em você; era uma travesti novinha que vive enchendo o saco, e cê não tem nada a ver com isso.
Penélope estranha a incidentalidade da descrição, como se houvesse uma razão velada para isso.
– De boa.
– Bora marcar alguma coisa depois.
– Vamo.
– Cê tá esquisita.
– Ressaca.
– Tá bom; vou te deixar descansar, mais tarde te mando mensagem.
– Beleza.
– Beijo.
– Beijo.
– Quem era?
– Amiga minha, só queria saber como que eu tô.
– Pode crê.
Consciente de que fedia a álcool, mesmo que nem ela mesma ou Penélope pudesse sentir, Heloïse pede para tomar um banho, que logo iria embora. “Vou pegar uma toalha procê”. Sem rodeios, ela logo toma banho e parte, deixando para a anfitriã uma sensação de que algo faltava.
Deitada, olhando pro nada, pensa no que Heloïse está fazendo exatamente naquele momento; deixa, não sem resistência, a ereção; a fome travecofágica deixa-a enfiar a mão sob a calça, a começar a se masturbar – deveria ser algo mais forte que sua má-consciência. Imagina todo tipo de cena que, “No ponto de vista do ordenamento estatal, é ilegal. Wissenchaft der Staatwesen; poderia ser um livro pós-idealismo alemão” – pensa, tentando fugir das efígies fetichistas; mari magno... O sangue escorrendo de seu braço, não sabe se caco de vidro foi, ou picada de mosquito carniceiro. O silêncio esmaga-lhe o gozo, não consegue sequer soltar um melzinho transparente, indulgente. Eucaristia de travesti é cu e sangue, mesmo. “Me ama”, pensa involuntária, intrusivamente. Elle est la célibataire, “m’aime”. Sangue pra valer. Foi vidro e mosquito. Acende a luz, seu braço tá todo vermelho. Enquanto se limpa lembra – “Mas é óbvio...” – que pode ligar pra Lira, que naquele momento numa cama do Miramar negociava anal com um cliente que afirmava ter só mais quarenta reais além da grana do motel – “Tá, mas goza rápido” –; dito isso, agilmente passou lubrificante no cara e se posicionou, de quatro, pegando no pau dele tanto pra verificar se mantinha a camisinha quanto pra botar na raba; quando ele começou a meter ela gritou toscamente, como se o pau dele tivesse ao menos vinte centímetros ou a circunferência de uma latinha de estrato Elefante – coisa que o animou, fazendo-o meter mais, e mais et cetera. Seguiram assim por uns minutos, até que ela ouviu seu próprio celular tocar e disse:
– Tá bom, deu.
– Mas e os quarenta real?
– Foi por isso mesmo, peraí; alô?
– Hey, como cê tá?
– Oi amorr... acabei de terminar um programa, e você? – disse ainda em clima de trabalho, como se fosse cliente.
– Terminar coisa nenhuma..
– Xii...!
– Anima de vir aqui em casa hoje?
– Dá não, tô cansada...
– Beleza.
– Depois nois marca.
Encerrada a ligação, começou a paranoiar que Lira ainda estava puta com ela, ou pior; que Lira havia trombado Helô e ela havia dito que dormira em sua casa na noite anterior; que Lira a havia caluniado para a menina e que as duas nunca mais se veriam, senão en passant e que Heloïse agora a olharia com desprezo. “Só mais uma breja...” – pensa, angustiadamente – “... E eu ficaria em paz por pelo menos uns quinze minutos”, e volta pro sofá, devaneiando a bunda de Helô, que sentara ali horas atrás. Pega seu celular, o fone de ouvido e põe pra tocar no aleatório sua playlist de PJ Harvey, que começa por “Ballad of the Soldier’s Wife”, um cover de Kurt Weill. Pensa que esse tipo de música seria adequado à Star Night, exatamente do outro lado da rua onde havia conhecido Heloïse, na “primeira noite do resto de sua vida”. “Não poderia ser mais orgânica uma trilha sonora assim; e eu que achava que não nasci pra ser noivinha...”, e, quando a música termina, põe repeat. Assim fica até saturar, de maneira a ela pôr o restante do disco, a começar pela cantada pelo Nick Cave, que logo soa-lhe silly, aspecto que a agrada, a aliena de si. Para Penélope, em nada se trata-se “a vida vale ou não a pena ser vivida”, mas que a vida é uma gratuidade; uma coisa profundamente desnecessária, e que quando chega-se nesse sentimento (mais do que no entendimento disso), ela pode ser boa. Pra ela, toda Necessidade lógica que se opõe à brutal contingência do ser nasce das carênciazinhas das pessoas. É o ser – sempre o ser – que perverte o raciocínio, não o contrário. Mas pensar com o corpo é sempre macular-se de Nada, aquele que seduz quando nos aproximamos de memórias mal-digeridas. Anarcúmenas na pista, seu telefone toca – assim, “a Necessidade pode ser a única modalidade, a única afecção do Ser” –, e ela pode do sofá levantar. Uma nova música começou, e Penélope não aprendeu a coreografia ainda. Haviam cinco mensagens de Helô penduradas e Pain mal se recordava de ter passado seu número a ela. Atende.
– Oi.
– Oiê, cê tá de boa?
– Tô.
– Então, perguntar... Posso dormir aí de novo?
Como recusar?
(Usando a expressão de Jack Will), nascida, crescida e exilada na cidade de Uberlândia, Ana Abrahão – dentre vários predicados copuláveis – “é” escritora, ilustradora e revisora de trabalhos acadêmicos e literários. Dentre seus trabalhos publicados, há Impessoalidade estética: esboço acerca dos critérios da sensação, e Ruptura Endocrinológica: Uboa e o ser-trans na música, presentes nos livros Deleuze e Guattari: pensar em veredas que se bifurcam vol. 2 arte e literatura, e Subversões: Ensaios de filosofias insubmissas, respectivamente; bem como o poema fugere non possunt, presente na Antologia Subsolo 2026. Trabalha na companhia de Bilinda, uma siamesa viralata bastante esnobe e fofa.